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CUIDAR DE SI, CONTINUAR A VIDA E FLORESCER - Aprendizados do Ipê Amarelo

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Por Tiago Rafael Reckziegel Rodrigues, Psicólogo Escolar
 

Totum opus nostrum in operatione consistit” (Toda a nossa missão consiste em agir). É nas palavras orientadoras e inspiradoras de São Vicente de Paulo que nos provocamos a pensar o nosso agir. Especialmente neste momento tão desafiador para a sociedade e para o homem, o agir nos leva a questionar nossas capacidades, limitações, angústias, medos, coragens. Somado a tal cenário, vivenciamos o momento em que a natureza nos brinda com a passagem do inverno. Para muitos, um tempo de recolhimento, paisagens bucólicas, talvez cinzentas. Dias nublados e cobertores quentes.
 

Difícil acreditar que possamos encontrar cor entre os tons esfumaçados das tardes. Mas é contrariando todos os inspirados poetas da nostalgia que somos extirpados por uma paleta vibrante de flores. E nessa adversidade, seja natural ou por causas humanas, surgem os ipês. Com suas floradas majestosas. Isso tudo porque os ipês contrariam a natureza. As flores desabrocham em dias secos e cinzentos de inverno. E é assim, antes mesmo do surgimento da nova folhagem, que elas anunciam a proximidade da primavera.

 
Para florir os ipês precisam passar por uma experiência de quase fim. No momento de maior sofrimento do ano, o inverno, eles perdem completamente as folhas. Trata-se do sinal de que estão estressadíssimos e prestes a florescer. Ou seja: é da experiência de quase extinção frente às severidades do clima que vem a beleza dos ipês. A planta entende o estresse como sinal de que seu fim pode ser iminente e, como resposta, busca produzir o máximo de sementes para deixar progênies. Talvez os ipês nos mostrem na prática o que é agir. Façam compreender que naqueles cenários tão absurdos, incoerentes com um “modelo” ideal, e propenso ao caos, é sim possível mostrar cor, e nisso perpetuar um legado.

 
A importância dos ipês é ainda maior, já que a flor do Ipê Amarelo é considerada a flor símbolo do Brasil, a partir de um decreto do presidente Jânio Quadros, de 27 de junho de 1961. A escolha levou em conta o fato de a espécie estar presente em todas as regiões do país, e principalmente pelo tom vibrante das suas flores. Durante a florada, suas folhas caem e a árvore fica inteiramente amarela, contrastando com as outras copas verdes. A união representa as duas cores do Brasil.

 
A inspiração que essa planta oferece é a do cuidar. Temos consciência que não somos proprietários da vida, mas administradores, e se acreditamos que ela é dom de Deus é muito importante aproveitarmos a oportunidade que o tempo nos proporciona para mexer na “terra” do nosso coração e fertilizá-la com tantas iniciativas que as reflexões do Setembro Amarelo nos sugerem, tornando, dessa forma, a vida mais fecunda.

 
É aqui que está a beleza e o valor do cultivo, necessário em estado permanente, no “canteiro” interior de cada pessoa, pois, como bem sabemos, inúmeras “pragas” ameaçam, a todo tempo, o êxito desse precioso esforço. Não podemos, porém, nos esquecer que esse trabalho pessoal, consigo próprio, não é para si próprio. O benefício da colheita a ser conquistado acontece somente quando o próximo, principalmente no irmão ou na irmã mais vulnerável, ganha mais dignidade e, consequentemente, qualidade à sua vida, em qualquer sentido.

Nesses dias estamos todos nos sentindo vulneráveis, pela pandemia e, de certa forma, forçados a admitir o quanto somos frágeis. Constatamos com sinceridade que o nosso egoísmo, nossa ganância, nossa indiferença têm provocado inquestionável vulnerabilidade da vida, como um todo. Aproveitemos, portanto, este tempo, para nos ocuparmos mais decididamente pelo cultivo da vida nos valendo, mais uma vez, do ipê como entusiasmo. Na essência de suas flores de amarelo intenso, temos o poder vitalizador e mobilizador de energias internas de cura. Na crença popular, fechar os olhos e imaginar um ipê amarelo favorece a cura do corpo e da alma. Sua madeira, incorruptível e indefinidamente durável lhe confere o símbolo de força e resistência. São Vicente de Paulo traduz essa analogia dos ipês ao nos dizer, ainda que a firmeza seja necessária para atingir o fim a que nos propomos em nossas boas obras é, contudo, necessário empregar muita ternura nos meios.

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